Woody Allen e motivação para o trabalho | André Caldeira para Exame.com

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Woody Allen uma vez disse que “80% do sucesso está em se fazer presente”. No contexto de uma audição ou teste para um papel, faz todo o sentido. Mas e no universo do trabalho e das empresas? Basta estar de corpo presente?

Dando sequência ao meu texto da semana passada sobre Felicidade no Trabalho, e ainda inspirado pelo livro de Alexandre Teixeira (Felicidade S/A), respondo à pergunta acima com uma frase de Nietzsche: “O que debilita mais rapidamente do que trabalhar, pensar, sentir sem uma necessidade interna, sem uma profunda escolha pessoal, sem alegria, como um autômato do dever?”.

Que tipo de resultados podemos esperar de profissionais desmotivados, que fazem de forma automatizada o check-in/check-out diário no trabalho, vivendo uma sequência interminável de 2as feiras? Qual o grau de criatividade e inovação que se pode esperar de profissionais que já se demitiram emocionalmente, mas que permanecem em seus empregos atuais somente pela necessidade do holerite no começo do mês, em um autêntico quadro de piedade patrocinada?

Grandes pesquisas internacionais (Towers Watson, Gallup, Aon entre outras), com bases estatísticas muito representativas e realizadas em diversos países, apontam para índices alarmantes de baixo engajamento ou mesmo falta de engajamento:entre 50 e 85% de profissionais apresentando baixo grau de satisfação com seu trabalho atual.

Vale lembrar que a falta de engajamento pode ser vista sob duas perspectivas: a do trabalho desinteressante e a da vida pessoal quase inexistente. Pois se não gosto do que faço no trabalho, me sinto desengajado. Por outro lado, se gosto do que faço, mas trabalho muito e quase não tenho tempo para minha vida pessoal (família, tempo para mim mesmo, etc.), também posso me sentir desengajado.

No Brasil, um levantamento internacional de 2011 apontou os executivos brasileiros entre os mais insatisfeitos do mundo com o equilíbrio entre vida familiar e dedicação profissional. A média global é de 27% para os homens e 29% para as mulheres que se dizem totalmente satisfeitos; no Brasil, apenas 12 e 13%, respectivamente.

Pesquisas do Instituto Gallup comprovam a ligação entre engajamento e desempenho financeiro das empresas, por conta, entre outros fatores, do menor absenteísmo, menor incidência de acidentes de trabalho e melhores condições de saúde dos funcionários. O Gallup estima, inclusive, que a crise de desengajamento nos EUA gira em torno de U$ 300 bilhões anuais em perda de produtividade. Este número é colossal, e pode ser melhor entendido quando pensamos nasconsequências do desengajamento: baixa produtividade, baixa inovação, presenteísmo (Woody Allen definitivamente não está certo neste caso), turnover e perda de talentos, entre outros fatores.

Alexandre Teixeira fala em seu livro, sobre a importância de gostar do que fazemos, a ponto de que o tempo livre chegue a parecer um conceito equivocado. Um cenário no qual as pessoas possam dizer “graças a Deus é segunda-feira”.
Ou seja, a busca de uma vida plena, onde trabalhar seja tão bom quanto ter tempo livre. Uma espécie de equilíbrio ideal entre ócio e trabalho.

De um lado, o conceito do vazio interior do budismo tibetano, em que o ócio e a mente em meditação criam paz de espírito e conexão. Tempo livre com qualidade e sem tédio.

De outro lado, o conceito de flow, de acordo com Mihaly Csikszentmihalyi. Neste estado, quando gostamos do que fazemos e estamos verdadeiramente engajados e envolvidos com o trabalho, entramos em uma espécie de transe, o chamado estado de fluxo, no qual não sentimos o tempo passar, e nos conectamos com o que fazemos de forma quase sagrada.

Vejam que não me refiro à simples conquista de um novo cliente ou a um aumento. Estes são prazeres passageiros. O que cria motivação (interna) e engajamento (externo) é o envolvimento. Gosto do que faço, por que entendo porque faço e percebo o resultado para quem faço. Ou seja, meu trabalho adquire significado. Nas palavras de Tammy Erickson, meaning is the new money: significado é a nova remuneração.

Quando um profissional encontra significado para o que faz, ele passa a desenvolver melhor suas competências, pode até trabalhar mais por conta de sua dedicação espontânea, para aumentar sua produtividade dado o grau de comprometimento. Como regra, esse tipo de profissional gera produtos e experiências melhores para os clientes, que se tornam mais leais. Por conta disso, os resultados financeiros das empresas preocupadas com o engajamento de seus talentos são melhores, na perspectiva de longo prazo.

De acordo com Gretchen Spreitzer (Universidade de Michigan) e Christine Porath ((Universidade de Georgetown), citadas no livro de Teixeira, o trabalhador feliz produz mais que o infeliz no longo prazo porque raramente falta no trabalho, tem menos chances de deixar a empresa, não se limita a cumprir o dever e atrai gente igualmente comprometida. Além disso, não é um velocista. Está mais para um maratonista, alguém comprometido com o longo prazo.

Precisamos, de fato, desenvolver o autoconhecimento para entender o que nos motiva. E buscar um tipo de trabalho que nos remunere de maneira justa, que permita o nosso crescimento e desenvolvimento, e que ofereça a experiência do significado. Isso vale para os profissionais das novas gerações, que todo mundo já sabe que são movidos por causas (embora eu sempre me pergunte até que ponto em suas carreiras, pois sempre estarão sujeitos às armadilhas das algemas de ouro do mundo corporativo). Mas a mesma busca de significado vale também para os profissionais não tão jovens, que somente constroem carreiras sustentáveis se trabalharem com motivação e se sentirem engajados.

A era de comando e controle, da cenoura e do porrete, da ordem e obediência surda e muda está em declínio. Porque vivemos em uma nova era de pleno emprego, onde faltam talentos e sobram posições nas empresas. Ou porque a Internet e as redes sociais proporcionam acesso e troca de informações muito maiores sobre o trabalho, as empresas, suas mazelas e bastidores.

Não basta estar de corpo presente, Woody Allen.
É preciso encontrar significado.


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