Apostar só na previdência não é garantia de futuro tranquilo – José Eduardo Costa e Mariana Amaro para Você S/A

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O economista Gustavo Cerbasi já fez em torno de 1 600 palestras. A maioria sobre o mesmo motivo: dinheiro. Ele publicou 14 livros e, no último, revisou algumas das orientações financeiras que já deu nos últimos dez anos.

Na entrevista a seguir, ele fala sobre como mudou sua forma de pensar em finanças pessoais e como aliar menos privações, maior qualidade de vida e mais sonhos realizados ao longo da vida.

VOCÊ S/A – Até dez anos atrás, os brasileiros investiam, basicamente, na poupança, pensando no futuro. Os investidores de hoje já sabem que ela não funciona mais sozinha para a aposentadoria. O que funciona?

Gustavo – Poupar um percentual relativamente reduzido da renda, em torno de 10%, não será suficiente para viver no futuro, porque essa conta não fecha. Para funcionar as pessoas teriam que viver como nossos pais viviam, com uma expectativa de sobrevida pós-aposentadoria de não mais do que 15 anos.

Hoje, quem se aposenta aos 65 está com a expectativa de vida de mais 25 ou 30 anos. Outro ponto importante é o erro nos cálculos da renda na aposentadoria.

As pessoas colocam na cabeça que aos 55 anos estarão ganhando cinco mil por mês e que a partir da aposentadoria uma fração desse valor, 80%, 70%, seria o suficiente, mas não é, porque os custos também aumentam. O importante é não é garantir uma renda na aposentadoria, mas sim criar um mecanismo de geração crescente de renda.

VOCÊ S/A – E, para isso, simplesmente poupar mais não é suficiente?

Gustavo – Não, porque não é viável poupar muito mais. Uma das soluções para ter uma aposentadoria mais digna é posterga-la. Se eu quero adiar, e prolongar minha carreira, não vou conseguir fazer isso com sofrimento.

Então se hoje tenho um certo grau de limitação porque poupo para o futuro, poupar mais só vai aumentar o sacrifício. E, com ele, a única coisa que eu vou conseguir é uma maior pressa para me aposentar. É um ciclo. Não estou cogitando um aumento significativo no esforço de poupança, o que estou sugerindo é que as pessoas se conscientizem de que para acumular enquanto se trabalha o perfil conservador é adequado.

Ele vai formar uma poupança que é insuficiente para manter meu futuro, mas essa poupança, somada a um projeto empreendedor pode gerar uma renda muito maior do que aquela que eu teria com um patrimônio milionário.

VOCÊ S/A – Como assim?

Gustavo – Um exemplo que uso nas minhas palestras: hoje, para me aposentar com uma renda de 10 000 reais por mês eu teria que ter um patrimônio de 2 milhões e meio a 3 milhões de reais. Talvez 1 ou 2% dos brasileiros consigam isso em longuíssimo prazo.

Mas também eu consigo uma aposentadoria de 10 000 reais com 100 000 reais poupados mais um bom projeto empreendedor estudado por alguns anos.

Eu só preciso criar um negócio próprio, uma franquia, alguma coisa que esteja numa área que seja agradável para o meu projeto de vida, que tem a ver com meus valores e que prolongue minha atividade profissional por mais tempo.

VOCÊ S/A – O ideal então é acumular uma parte do dinheiro e empreender?

Gustavo – A maioria da população, na verdade, não leva jeito para montar um negócio próprio. Por isso o que eu recomendo não é exatamente o empreender, mas sim uma atitude empreendedora.

Por exemplo, uma pessoa ao longo da sua carreira produtiva, foi se sentindo à vontade em comprar um ou dois imóveis. Com a disponibilidade de tempo que vai ter na aposentadoria o que seria a atitude do empreendedor?

Seria dedicar tempo realmente a estudar o plano diretor da cidade, a conversar com diferentes fontes do mercado imobiliário, participar de eventos nesse mercado para começar a entender melhor, com maior certeza quais são as verdadeiras oportunidades desse mercado.

VOCÊ S/A – É mesmo possível ter esse planejamento de longo prazo sem ter privação, tendo qualidade de vida e realizando sonhos ao longo da vida?

Gustavo – Eu acredito que sim. Na verdade, o que as pessoas precisam fazer é buscar elementos que deem uma sensação de recompensa no lugar de criar o sentimento de privação, porque quando as pessoas entendem numa visão tradicional que é importante cortar gastos e fazer poupança, elas entendem que é preciso se privar de algumas coisas.

Na hora de cortar gastos, elas vão pelo caminho mais curto, de cortar o gasto avulso. Só que este é, normalmente, a válvula de escape. Aquela água gelada que você toma num dia quente, a revista que você compra para ler numa fila que você vai encarar, é uma massagem que você faz depois um período estressante.

Esse gasto avulso tende a ser visto como supérfluo, como vilão e é o primeiro item a ser aniquilado num planejamento, num esforço maior de fazer poupança. Com isso a pessoa racionalmente alcança seu objetivo de curto prazo, mas emocionalmente vai tender a se sabotar, a se trair porque ela está se colocando numa situação menos confortável. O certo seria a pessoa valorizar gastos com cultura, com lazer, qualidade de vida.

Mas, para manter este gasto no seu orçamento necessariamente você terá que reduzidos outros. O que eu sugiro é uma redução de gastos com outras coisas como o aluguel ou o automóvel.

VOCÊ S/A – Mas como a gente está vivendo um período inflacionário, olhando para frente e vendo uma baixa perspectiva aí de crescimento de PIB, de revisão de salários, de promoções na carreira, nesses momentos como a gente está vivendo atualmente e olhando para os próximos 12, 15, 24 meses não vê uma possibilidade de melhora isso muda a forma como eu devo avaliar minhas finanças, considerando esse longo prazo ou não?

Gustavo – Diante de uma incerteza com relação à manutenção do meu emprego é muito mais interessante eu ter um estilo de vida um pouco mais simples ou estar num imóvel alugado, por exemplo, que eu possa interromper o contrato daqui alguns meses e passar para um mais simples ainda, tendo margem, tendo verba no orçamento para ser cortada, tendo alguns gastos a serem simplificados do que assumir a posição oposta de ter prestações pesadas de uma moradia, prestações pesadas de um carro, prestações pesadas de férias que eu já tirei e não consegui pagar à vista ano passado.

Então todo comprometimento da renda através do parcelamento se torna extremamente crítico diante de um cenário de dúvida.

O momento agora é de atenção às oportunidades, dinheiro na renda fixa, gastos fixos reduzidos, maior parcela de consumo flexível, de lazer, qualidade de vida, justamente para lidar melhor com as turbulências, as incertezas. Flexibilidade sempre é importante, hoje é a palavra chave do planejamento financeiro familiar.

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